Na Lata

O Na Lata publica, mensalmente, neste blog, uma entrevista ou um texto interessante – sempre inéditos – que aborda o universo das boas ideias, das melhores práticas e das pequenas e grandes soluções para as questões atuais que envolvem a relação da sociedade com o meio ambiente. Repensar, junto com vocês, será sempre a nossa proposta.

Vamos colocar o livro no cotidiano das pessoas 

Bibliopote (Curitiba – PR)

Bibliopote é uma ideia, é uma proposta, é uma referência e é uma iniciativa democrática e positiva em favor do livro e da leitura. Instalada na Panificadora Pote de Mel, que fica no Centro de Curitiba (PR), a Bibliopote é uma iniciativa original do jornalista Alessandro Martins e do seu blog Livros e Afins.Frequentador assíduo dessa padaria, Alessandro começou a levar seus livros para uma leitura que acompanhasse o seu café. Percebeu que a Pote de Mel recebia um público variado e flutuante e que, muitas vezes permanecia ali, como ele, por algum tempo. A vizinhança da padaria inclui o Hospital de Clínicas e a reitoria da Universidade Federal do Paraná e, também por isso, o público é bastante diversificado. Lembrou-se de uma experiência interessante e bem sucedida de uma biblioteca instalada em um açougue em Brasília (DF). Daí, ele pensou: por que não em uma padaria? Conversou com o dono da Pote de Mel, Carlos Lazzaris, que gostou da ideia e abriu espaço para a nova biblioteca. Desde 2008, a Bibliopote – Biblioteca Livre Pote de Mel já fez circular mais de 4.000 livros e possui um acervo atual – flutuante – entre 300 e 500 livros. São números significativos, não? Mas significativa mesmo é a proposta que deu certo e que envolve um número cada vez maior de adeptos e de admiradores, e que vem servindo de inspiração para a criação de novas bibliotecas livres pelo País.

Vamos saber agora o que Alessandro Martins, protagonista dessa história boa, tem para nos contar sobre a Bibliopote.

Alessandro, via skype, na hora da entrevista.



Como funciona a Bibliopote?

Alessandro Martins: A Bibliopote funciona com regras muito claras e simples. Criamos uma política que conta com o compromisso ético das pessoas no exercício da liberdade que é oferecida de pegar um livro emprestado e devolvê-lo quando quiser. É claro que alguns livros não voltam, mas, depois que as pessoas entendem a proposta, elas tomam para si a responsabilidade com o livro e o processo funciona como deve ser.

Quais são essas regras?

Alessandro Martins: As regras – que estão no carimbo impresso em todos os livros do nosso acervo – são as seguintes:
1. Leve este livro para onde quiser durante o tempo necessário;
2. Cuide dele. Depois de ler, devolva;
3. Este livro não deve pertencer a ninguém;
4. Se ele estiver em prateleira particular, leve-o, leia-o, passe-o adiante ou devolva à Biblioteca Pote de Mel;
5. Se quiser, doe um livro para a Biblioteca Pote de Mel.

 

Bibliopote – livros em detalhe

Vocês têm algum tipo de registro e controle dos livros da biblioteca?

Alessandro Martins: Não. O único controle efetivo que temos é o carimbo que vai no livro. O carimbo contém justamente as regras da Bibliopote. Assim podemos informar às pessoas sobre os princípios que regem a nossa biblioteca. Existe , também, um livro de registro para atender àqueles que ainda estranham a liberdade que a gente oferece. Mas como é opcional, ele se tornou mais um objeto de design do que uma forma de controle. Porque, na verdade, se o livro voltar, ótimo! Mas se não voltar, tudo bem também. O importante é colocar o livro no cotidiano das pessoas e promover a sua circulação.

Você acha que essa proposta funcionaria em qualquer lugar do Brasil?

Alessandro Martins: Acredito que sim. Mas tem que ser em um lugar com uma grande circulação de pessoas que sejam de diferentes tipos de classes sociais – como é uma padaria, por exemplo. Tem que permitir o acesso a todo tipo de pessoa.

Já existem, pelo Brasil, outras iniciativas também originais que pretendem estimular a leitura e fazer o livro circular, como é o caso da Bicicloteca e da Bibliotáxi. Você já teve notícia de iniciativas que se inspiraram na Bibliopote?

Alessandro Martins: Sim, sempre recebemos notícias de novas iniciativas e fazemos questão de divulgá-las no blog da Bibliopote e meu blog, Livros e Afins. Recentemente, em Indaiatuba(SP), foi inaugurado o projeto “Leitura na Padaria” que, segundo nos informaram, foi inspirada na nossa experiência. Isso é muito bom, pois um dos nossos desejos é que a Bibliopote seja mesmo uma inspiração para iniciativas semelhantes.

Bicicloteca no RJ.

O que você pensa quando ouve alguém repetir que “brasileiro lê pouco, que não gosta de ler”?

Alessandro Martins: Eu não concordo. O brasileiro gosta muito de ler. Veja a internet, por exemplo. Cada vez mais, as pessoas se comunicam por escrito, exercitam a escrita e a leitura. E o Brasil é um dos países que mais acessam a internet atualmente. Sou a favor de que o livro e a leitura estejam no cotidiano das pessoas por todos os meios possíveis. É um movimento cíclico: a leitura na internet estimula a busca pelo livro físico também. O kindle (um modelo de e-book) oferece uma leitura muito confortável também. O principal do livro é o seu conteúdo. O livro impresso é um dos veículos das ideias do autor.

O volume do atual acervo e pela referência de mais de 4.000 livros circulando, a partir da Bibliopote, significa que o volume de doações é grande. Como é que isso funciona?

Alessandro Martins: As pessoas gostam da idéia de participar. As doações nos chegam de todos os lados e por motivos variados, inclusive pelos Correios. No blog da Bibliopote deixamos claro que contamos com doações para manter a nossa biblioteca e sugerimos que se preocupem com a boa condição dos livros doados e sugerimos o que podem fazer com livros didáticos e de conteúdo técnico. Além das doações, as boas trocas também acontecem.

O acervo inicial da Bibliopote foi feito com livros que eram seus e que, além da quantidade, são livros de ótima qualidade. Como foi, para você, fazer essa doação?

Alessandro Martins: Foi muito tranquilo. Aliás, eu fiz questão de doar bons livros e que estavam em ótimo estado de conservação com a clara intenção de dar o exemplo. Ao entregar os meus livros eu estava conferindo a eles um valor a mais: eles passaram a pertencer a todo mundo. Eu acho que quando alguém guarda o livro na própria estante está roubando a energia de um livro que deveria circular. Não entendo como uma pessoa pode gostar de um livro e, geralmente, não ser capaz de dar esse livro para que outra pessoa o aproveite. Eu criei uma “regra de ouro dos empréstimos”, que funciona pra livros, CD’s e até para dinheiro: “Você só deve emprestar aquilo que você puder dar”. Do contrário, vai ser muito difícil “cultivar amigos e influenciar pessoas…”

Parte do acervo da Bibliopote.

Qual tem sido o retorno que a Bibliopote tem dado para você e para a Panificadora Pote de Mel?

Alessandro Martins: A Bibliopote tem sido uma oportunidade de aprimoramento das relações entre as pessoas. O tratamento cordial que a equipe da Pote de Mel oferece a todos, além do espaço da biblioteca, é o que me faz sentir como um “bom freguês” e não como um “cliente”. Frequento a padaria diariamente e sempre sou bem recebido. Eles estão sempre preocupados em melhorar o ambiente e o relacionamento com os seus fregueses. De minha parte, a Blibliopote foi uma contrapartida física do trabalho que já realizo em meu blog Livros e Afins. O principal produto da relação estabelecida entre pela criação de uma biblioteca livre naquele espaço é justamente a oportunidade, para todos nós, do exercício da ação ética. Além do mais, já perdemos a conta de quantas entrevistas demos sobre a Bibliopote. É ótimo poder divulgar uma experiência que está dando certo.

Entrevista realizada (via skype) em 22.8.2011 por Élida Murta.

Livros e Afins: Para saber mais sobre as idéias e o trabalho do Alessandro Martins.
Bibliopote: Visite o site da Bibliopote para mais informações sobre doações e visitas.
Panificadora Pote de Mel: Para saber mais sobre padaria, acesse o site.

Não deixe de conferir as boas dicas de Alessandro Martins na sessão INdica.


“Livros devem circular.

Um livro fechado está adormecido.

Se um livro acorda, uma pessoa acorda”.

(Lema da Bibliopote)

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