2022: Sobreviver é preciso

26 de julho de 2022

Foto: Kevin Ochieng Onyango

Março de 2020: o mundo inteiro se viu diante de um vírus poderoso – um novo Coronavírus – que mudou radicalmente a vida social, ambiental e econômica do planeta. Medo, insegurança, isolamento, luto. Esse foi o cenário de impacto num primeiro momento. A perplexidade, porém, não paralisou todo mundo. Cientistas, pesquisadores e toda a classe médica e de saúde reagiram para enfrentar, socorrer, amenizar e salvar vidas. Governos (nem todos) convocaram suas populações a assumir um novo comportamento, impondo protocolos de cuidados coletivos até que se descobrisse o que estava acontecendo e como a situação seria enfrentada. Isolamento social, investimentos emergenciais em pesquisas científicas, desenvolvimento de vacinas e uma readequação emergencial e progressiva nas relações de trabalho foram processos desencadeados de forma simultânea em quase todo o mundo. Um cenário desolador se estabeleceu: o número de mortes era crescente, diário e assustador. Faltavam respostas, faltavam certezas, faltava comida, faltava ar.

De um lado, o luto e o medo aumentavam a nossa insegurança e aprofundavam as dificuldades de sobrevivência. Por outro lado, pesquisadores no mundo inteiro se uniram e se dedicavam dia e noite para encontrar respostas e para desenvolver vacinas que nos permitissem enfrentar aquele vírus esperto e mutante. Cidades decretaram lockdown, hospitais de campanha foram montados da noite para o dia e a corrida desesperada pela vacina começou. Cada país reagiu de uma forma. Hoje podemos dizer que, no Brasil, o atual governo reagiu e se comportou da forma mais chocante e absurda que se poderia esperar num momento de pandemia. Expôs o seu descaso pela população brasileira: ofereceu negação, desinformação, desonestidade e medicamentos inadequados que, consequentemente, desencadearam a morte (muitas vezes evitável) de milhares de pessoas. A campanha de vacinação, por exemplo, só começou no Brasil em janeiro de 2021. A enorme desigualdade social do nosso país escancarou sua realidade terrível. Faltaram respostas, faltaram investimentos adequados, faltaram vacinas, faltou empatia, faltou consenso, faltou comida, faltou ar. Sobrou tristeza, luto e perplexidade.


“Há uma única espécie responsável pela pandemia Covid-19: nós”.

As crises climáticas, a destruição de florestas e da biodiversidade e também as pandemias estão diretamente relacionadas à atividade humana e são consequência do poder imposto pelo sistema financeiro mundial, que coloca o crescimento econômico acima do desenvolvimento social e do equilíbrio ambiental. Assim como as sequelas deixadas pelo Coronavírus no nosso corpo – ainda imprevisíveis a médio e longo prazos – a atividade econômica desenfreada já é responsável por um colapso ambiental sem precedentes em nosso planeta, deixando sequelas sociais e ambientais irrecuperáveis. Vai sobrar calor, vai sobrar terra improdutiva, vai sobrar fome, vai sobrar violência, vai faltar saúde, vai faltar água, vai faltar ar.


NADA SERÁ COMO ANTES, AMANHÃ…

Clique na imagem acima para ouvir a música de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

Ela traduz bem o momento de pandemia que estamos vivendo.


Estamos em 2022. O cenário mudou, mas a pandemia não acabou.

A PANDEMIA NO BRASIL HOJE

Com a diminuição do número de casos graves e de mortes diárias, resultante da vacinação ainda em curso e das doses de reforço, houve um relaxamento progressivo nas regras de isolamento social, liberando gradualmente a volta presencial nas escolas, a realização de shows, de grandes festas e de outros eventos, o Brasil acreditou estar vivendo um “novo normal” e celebrou com estádios de futebol lotados, desfiles de escolas de samba e a liberação do uso de máscaras em locais abertos e, depois, também em locais fechados. Acontece que a pandemia não acabou! E o contato mais próximo, a resistência às doses de reforço da vacina, a diminuição (absurda!) da vacinação infantil, somadas à diminuição do uso de máscaras e do álcool em gel vêm provocando um sobe e desce no número de casos e de mortes. Muitas pessoas continuam perdendo a vida diariamente para o vírus da Covid-19 e para outros tipos de gripe e de doenças respiratórias, especialmente crianças pequenas (ainda não vacinadas) e idosos. Há muito o que aprender e trabalhar para chegarmos a um equilíbrio e à diminuição real das consequências dessa pandemia.

“É provável que pandemias futuras ocorram mais frequentemente, propaguem-se mais rapidamente, tenham maior impacto econômico e matem mais pessoas, se não formos extremamente cuidadosos acerca dos impactos das escolhas que fazemos hoje.”

Leia o artigo na íntegra sobre esse tema


AÇÃO E REAÇÃO

Na história recente da nossa sociedade nada teve o impacto que a pandemia de Covid-19 provocou em todo o mundo. Em pouco mais de dois anos, relações sociais e trabalhistas foram radicalmente transformadas e muitas mudanças estruturais e de comportamento ainda estão em curso.

Os setores produtivos – em especial o comércio e a indústria – também buscaram saídas de sobrevivência investindo em logística e no desenvolvimento de infraestrutura para oferecer bens e serviços sem quebrar os protocolos impostos de proteção individual e coletiva. Falência, inadimplência, dívidas e muita incerteza ainda afetam esses setores, mas a reação, em todo o mundo, também apontou saídas e a exploração de recursos que antes não eram tão essenciais no volume de negócios. O e-comerce, as reuniões virtuais, o home office, a educação a distância, por exemplo, foram recursos impulsionados e que mostraram a sua eficácia. Grupos financeiros e empresas de todos os portes tiveram que repensar suas estratégias e se readequar para enfrentar os desafios impostos pela realidade do mundo durante esta pandemia.

Na prestação de serviços desenvolveram-se recursos, programas e sistemas integrados, criando-se logísticas direcionadas para otimizar o transporte, as entregas rápidas, os estoques, as embalagens, e movimentando um mercado formal e informal que não para de se adaptar e de crescer. Quando se fala em adaptação, é impossível não falar da informalidade crescente na realidade do trabalho no Brasil. Junto com o desemprego, a nossa desigualdade social evidenciou o crescimento da informalidade do trabalho, que cresceu e continua a ser uma marca preocupante no quadro social geral brasileiro. Segundo dados divulgados pelo IBGE, até 30 de julho de 2021 existiam 36,295 milhões de trabalhadores atuando informalmente no País.

Fonte: https://gooutside.com.br/quatro-formas-de-apoiar-os-entregadores-de-bike/

Os entregadores informais de comida, seja de bicicleta ou de moto, talvez sejam, depois dos profissionais da saúde, os personagens urbanos que mais trabalharam duro nesta pandemia. Eles merecem o nosso reconhecimento.


Foto: Sandro Araújo/Agência Saúde do DF

Se a comunidade científica reagiu e se mobilizou em tempo recorde para desenvolver vacinas, medicamentos e tecnologia para enfrentar essa pandemia, também nós, individual e coletivamente, reagimos de diversas maneiras para garantir nossa saúde e nossa sobrevivência. Sobraram desafios, sobraram ações e movimentos de solidariedade, sobrou compaixão, sobrou coragem, sobrou empatia, sobrou criatividade, sobrou resiliência, sobrou inspiração. Provamos nossa capacidade de reagir ao luto e à dor. Após o primeiro impacto e apesar de todas as dificuldades impostas pelo isolamento social, o trabalho e a educação, por exemplo, descobriram que a tecnologia poderia ser uma forte aliada para trabalhar, ensinar e aprender a distância. Não foi – e ainda não é – fácil para ninguém. Em postagens futuras vamos falar especialmente sobre os impactos dessa pandemia na educação e, ainda, na arte e na cultura.


A fotografia O Último Respiro, de Kevin Ochieng Onyango, feita em Nairóbi, no Quênia, é uma poderosa reflexão sobre a trajetória dos danos sociais e ambientais em tempos de pandemia. Vencedora do prêmio de Fotógrafo Ambiental do Ano 2021, na categoria Ação Climática, o fotógrafo registrou um menino conectado, de forma surreal, com uma máscara facial e um respirador, a uma planta em um vaso colocado ao lado dele como se fosse um tanque de oxigênio.

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-59775494

EM BUSCA DE UM NOVO RUMO

Sabemos que o presente continua a exigir de todos nós um esforço enorme para sobreviver e acreditar em um futuro cada vez mais incerto. Sabemos também que precisamos criar bases mais seguras para garantir a nossa adaptação e reorganização pessoal e coletiva com coragem e esperança. Não podemos desistir! Superação, resiliência, e uma grande vontade de viver para poder oferecer aos que estão vindo depois de nós um mundo resgatado da dor, da covardia, da desigualdade e da destruição da natureza.

Cuidar de verdade do nosso planeta, criar uma nova relação de confiança entre as pessoas, acreditar que seremos capazes de superar tudo o que está acontecendo agora pode parecer uma utopia, mas vamos nos fortalecer agora e acreditar que existe, sim, dentro de nós e em tudo que está à nossa volta, um universo de infinitas possibilidades.

Imagem da Nebulosa de Eta Carinae, uma das maiores e mais brilhantes nebulosas, posicionada a 7,6 mil anos-luz de nós. Nebulosas são pontos do espaço contendo todos os elementos de formação de estrelas. A Eta Carinae é a casa de várias estrelas massivas, milhares de vezes maiores que o Sol. Essa e outras imagens foram reveladas, no último dia 11 de julho, pelo telescópio espacial James Webb, da NASA, que seguirá fazendo as imagens mais distantes que a humanidade já registrou.

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”.

 (Eduardo Galeano)


Ficha Técnica deste post
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Redação e Revisão: Élida Murta
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